Literatura clássica universal e EJA

4 04 2008

Imagine um encontro semanal entre adultos recém alfabetizados, professores, acadêmicos respeitados, estudantes da Universidade, do Ensino Fundamental e do Ensino Médio. Eles escolhem uma obra importante da literatura universal para lerem juntos. Cada um, independentemente da formação, tem espaço para colocar seus sentimentos e opiniões a respeito do texto.

Particularmente, eu enlouqueci quando ouvi essa idéia na semana passada, na disciplina sobre EJA que estou cursando como ouvinte na Faculdade de Educação da USP. E gostei ainda mais das tais “Tertúlias Literárias”, quando li o artigo de um grupo da Ufscar, que copio abaixo.

Já pensou se fizéssemos algo parecido um dia?

Bianca, a maluquinha do Módulo 2 ;)

Tertúlia Literária Dialógica

Área Temática de Cultura

Resumo

A Tertúlia Literária Dialógica é uma atividade cultural e educativa desenvolvida a partir da
leitura de livros da Literatura Clássica Universal. É gratuita, aberta a todas as pessoas de
diferentes coletivos sociais e culturais, incluindo pessoas recém alfabetizadas. O objetivo é
promover espaços de diálogo igualitário e de transformação (pessoal e do entorno social mais
próximo). Sua metodologia baseia-se na aprendizagem dialógica. O projeto é desenvolvido
pelo NIASE/UFSCar por meio de parcerias com instituições ou projetos educacionais,
culturais ou sociais. Em encontros semanais, a partir de obra literária escolhida em comum
acordo, cada pessoa destaca trechos do lido para comentá-lo com o grupo. Desde que
iniciamos o projeto, atuamos junto a estudantes do ensino médio de escola pública e de curso
pré-vestibular para população carente. Atualmente atuamos junto a homens e mulheres de
uma turma de EJA e de duas turmas da Universidade da Terceira Idade. Os principais
resultados são o acesso a obras literárias, a aprendizagem instrumental com sentido e o
princípio de unidade na diferença. Frente à experiência desenvolvida desde 2002, conclui-se
que a Tertúlia assume uma função social transformadora, já que democratiza a literatura como
fonte de diálogo e interação entre diferentes pessoas e conhecimentos.
Autores
Profa. Dra. Roseli Rodrigues de Mello (pós-doutorado em sociologia e educação/ CREA-
Universidade de Barcelona)
Thaís Helena Batel (graduanda em Licenciatura em Pedagogia)
Adriana Marcela Bogado (mestranda em Ciências Sociais)
Tiago Hori (mestrando em Genética e Evolução).
Instituição
Universidade Federal de São Carlos – UFSCar
Palavras-chave: aprendizagem dialógica; transformação; democratização
Introdução e objetivo
A Tertúlia Literária Dialógica é uma atividade cultural e educativa que está sendo
desenvolvida em vários países, em diferentes tipos de entidades, como escolas de pessoas
adultas, associações de mães e pais, grupos de mulheres, entidades culturais e educativas
como forma de superação de exclusão social pelo diálogo. Não apresenta nenhum obstáculo
social ou cultural para a participação, pois é uma atividade gratuita, aberta a todas as pessoas,
de diferentes coletivos sociais e culturais, inclusive às pessoas que recém aprenderam a ler
(Mello, 2003).
Consiste na leitura dos clássicos da literatura universal e é baseada no diálogo, não se
pretende descobrir nem analisar aquilo que o autor ou autora de uma determinada obra quer
dizer em seus textos, mas, sim, promover uma reflexão a partir das diferentes e possíveis
interpretações que derivam de um mesmo texto.
Frente às práticas de exclusão social e cultural e, nelas, a de exclusão escolar, a crença
a respeito de quê tipo de texto cada pessoa pode ou não pode ler mitifica a prática de leitura
tornando-a prática distintiva. A escolarização e a especialidade passam a esconder e a
sustentar discriminação por classe social, idade, grupo cultural, sexo (Mello, 2003).
A Tertúlia Literária Dialógica surgiu em 1978, na Escola de Educação de Pessoas
Adultas de La Verneda de Sant-Martí, em Barcelona, Espanha. Foi criada por educadores,
educadoras e participantes. Atualmente, é difundida pela Confederação de Federações e
Associações de Participantes em Educação e Cultura Democrática de Pessoas Adultas
(CONFAPEA), da Espanha, através do projeto “Mil y Una Tertulias Literarias Dialógicas por
Todo el Mundo”.
No Brasil, as Tertúlias Literárias Dialógicas são divulgadas e desenvolvidas pelo
Núcleo de Investigação e Ação Social e Educativa (NIASE), da Universidade Federal de São
Carlos. Este Núcleo é composto por pessoas de diferentes áreas de conhecimento (professores
universitários, alunas e alunos de doutorado, de mestrado e de graduação da Universidade
Federal de São Carlos e de outras instituições).
O NIASE foi criado a partir e com base nos estudos realizados junto ao Centro de
Investigação Social e Educativa (CREA), da Universidade de Barcelona/ Espanha (Mello,
2002a). No NIASE, são desenvolvidas ações de pesquisa, ensino e extensão considerando-se
diferentes práticas sociais e educativas, com o objetivo de contribuir para a superação de
exclusão social, cultural e educacional.
Na extensão universitária, as ações do NIASE se dão por meio do Programa de
Extensão “Democratização do conhecimento e do acesso à escolarização”, da Universidade
Federal de São Carlos. A Tertúlia Literária Dialógica é um dos projetos desenvolvidos pelo
NIASE, em tal programa de extensão e na linha de pesquisa “aprendizagem dialógica e ações
comunicativas”, do diretório de grupo do CNPq.
O NIASE divulgou o projeto e iniciou o primeiro grupo de Tertúlia na cidade de São
Carlos/SP e, desde então, o projeto vem sendo desenvolvido, através de parcerias, em
diferentes instituições.
Com relação a esse projeto, prevêem-se os seguintes objetivos (Mello, 2002 b):
1. Promover o encontro de pessoas distintas entre si (diferentes gerações, regiões de
origem, descendências, etc.) com obras da literatura clássica, internacional ou nacional.
2. Promover o diálogo e a reflexão entre diferentes pessoas em torno das obras lidas e
dos temas que elas suscitam.
3. Estimular o acesso a diferentes conhecimentos e modos de vida, como ampliação da
solidariedade e da possibilidade de convívio entre as pessoas.
4. Explicitar a existência da inteligência cultural como capacidade de se aprender
diferentes coisas ao longo de toda a vida.
5. Auxiliar na criação de sentido para a leitura como atividade cultural, de direito de
todos.
Metodologia


Na origem das Tertúlias, na Escola de Educação de Pessoas Adultas de La Verneda de
Sant Martí, em Barcelona/ Espanha, pessoas que estavam aprendendo a ler e a escrever, ou
que se firmavam neste processo, aceitaram o desafio de quebrar um muro cultural, colocado
pelo discurso dominante a respeito de que a literatura Universal só pode ser lida e entendida
por quem teve longa formação acadêmica. Juntas e juntos passaram a se encontrar
semanalmente com autores e autoras como Kafka, Proust, Machado, Youcernart, etc.
Seguindo o que ali se começava a construir, enquanto concepção de educação, a
dinâmica foi sendo estabelecida a partir dos princípios da aprendizagem dialógica (Flecha,
1997). A aprendizagem dialógica é um conceito elaborado pelo Centro de Investigação Social
e Educativa (CREA), da Universidade de Barcelona, com base nas contribuições de Paulo
Freire, para a Educação, e de Habermas para a Sociologia. Implica sete princípios que são
indissociáveis: diálogo igualitário, inteligência cultural, transformação, dimensão
instrumental, criação de sentido, solidariedade e igualdade de diferenças.
O diálogo igualitário implica que em uma Tertúlia são respeitadas todas as falas
igualmente; o que não se aceita é que nenhuma pessoa queira impor a sua idéia como válida.
Pressupõe que o encontro se dá entre sujeitos capazes de linguagem e ação. Assim, as
diferentes manifestações são consideradas em função da validade dos argumentos, e não da
posição de poder de uns sobre outros. A relação é estabelecida em torno do que cada pessoa
pode trazer à discussão e à aprendizagem de determinado tema – o que não implica o
questionamento de conhecimentos estabelecidos, como aconteceria numa perspectiva
construtivista, mas de considerar argumentos que se apóiam não apenas no mundo objetivo,
como também no mundo social e no mundo subjetivo (como construção de
intersubjetividades) – Mello (2002a).
O princípio de diálogo igualitário é possível porque está apoiado em outro: o de
inteligência cultural. Entende-se que ao longo de nossa vida aprendemos muitas coisas e de
maneiras muito diversas. Todas as pessoas têm uma inteligência cultural, ou seja, têm as
mesmas capacidades para participar num diálogo igualitário, ainda que cada uma possa
demonstrá-las em ambientes distintos (Flecha, 1997). Esta inteligência se desenvolve segundo
os contextos de inserção das pessoas, permitindo, portanto, reformulações constantes a partir
das novas inserções e interações. (Mello, 2003).
Vivendo o processo de diálogo igualitário, com base na inteligência cultural, as
pessoas vão podendo viver transformações pessoais quanto à sua auto-imagem e à maneira de
se porem no mundo, produzindo transformações nas relações estabelecidas em seu entorno
imediato e podendo chegar a se implicar em movimentos mais amplos pela transformação
social e cultural. Realiza-se, desta maneira, o princípio de transformação, constitutivo da
aprendizagem dialógica.
A aprendizagem instrumental é outro princípio envolvido. O acesso a um
conhecimento sistematizado em conteúdos e habilidades acadêmicos não é desprezado. Flecha
(1997) esclarece que: “o dialógico não se opõe ao instrumental, mas sim à colonização
tecnocrática da aprendizagem. É dizer, evita que os objetivos e procedimentos sejam
decididos à margem das pessoas, protegendo-se atrás de razões de tipo técnico que escondem
os interesses exclusores de umas minorias” (p. 33).
Como esclarece um participante da Tertúlia da Escola de La Verneda de Sant-Martí:
“O diálogo possibilita também que aprendamos conhecimentos mais acadêmicos e
instrumentais, já que quando lemos e comentamos uma obra também nos interessamos pelo
que acontecia na época em que foi escrita, a qual movimento literário pertence, quais são suas
características. Tudo isso é pesquisado por quem quer, perguntando-se a familiares,
procurando-se em enciclopédias, na internet … e depois é exposto ao grupo.” (CONFAPEA,
1999).
Deste processo, de acordo com Flecha (1997) surge a criação de sentido, como
possibilidade de sonhar e agir, dando sentido à própria existência. Ao se unirem, no processo
de aprendizagem, conhecimento vindo das instituições que estruturam a sociedade moderna
(escola, ciência, literatura, etc.) e vindas do mundo da vida, proporciona-se um
enriquecimento mútuo a esses dois âmbitos da vida. Permite-se a integração do cognitivo, do
ético, do estético e do afetivo, superando-se a sensação de desilusão e fragmentação trazida
pela crescente necessidade de se mover e de escolher na atual sociedade, sob a pressão dos
muitos riscos que temos que enfrentar. Uma criação de sentido que se dá em torno da vida
coletiva, embora beneficie diretamente a vida pessoal.
A solidariedade encontra-se nas Tertúlias Literárias Dialógicas, já de partida, na
solidariedade de condutores da atividade com as pessoas em situação de exclusão,
priorizando-se sempre a sua participação. Isto se garante desde a gratuidade da atividade, até
o apoio a que pessoas que têm vergonha possam expor suas idéias e serem respeitadas nesta
exposição. Não se busca impor a própria verdade, mas promover a aprendizagem conjunta
entre todos. Destas relações de respeito e solidariedade nos encontros, vão nascendo ações de
solidariedade com a comunidade mais ampla.
Por fim, a aprendizagem dialógica supõe e cultiva a igualdade de diferenças, como “o
mesmo direito de cada pessoa de viver de forma diferente” (Flecha, 1997, p. 42). Tal
proposição supera tanto a concepção homogeneizante de igualdade , como a concepção
relativista de diferença – “quando se expõe a diferença separada da igualdade, geram-se
desigualdades” (Flecha, ibid., p.42). As pessoas têm garantido o igual direito a expor suas
idéias e argumentar, não se pretendendo uma homogeneização de opiniões e pontos de vista,
mas o conhecimento de diferentes perspectivas e a potencialização de processos reflexivos.
A partir de tais princípios, educadoras e educadores e participantes foram, na escola de
La Verneda de Sant-Martí, desenvolvendo e aperfeiçoando a dinâmica da atividade. Flecha
(1997) assim sintetiza tal dinâmica: “A tertúlia literária se reúne em sessão semanal de duas
horas. Decide-se conjuntamente o livro e a parte a comentar em cada próxima reunião. Todas
as pessoas lêem, reflexionam e conversam com familiares e amigos durante a semana. Cada
uma traz um fragmento eleito para ler em voz alta e explicar por quê lhe há resultado
especialmente significativo. O diálogo se vai construindo a partir dessas contribuições. Os
debates entre diferentes opiniões se resolvem apenas através de argumentos. Se todo o grupo
chega a um acordo, ele se estabelece como a interpretação provisoriamente verdadeira. Caso
não se chegue a um consenso, cada pessoa ou subgrupo mantém sua própria postura; não há
ninguém que, por sua posição de poder, explique a concepção certa e a errônea” (p. 17-18).
Tanto a dinâmica como elementos de estabilidade da atividade devem ser respeitados
para garantir a efetiva participação e a aprendizagem dialógica. Como elementos de
estabilidade são ressaltados: a) que se garanta que a Tertúlia ocorra sempre no mesmo horário
e local e b) que mantenha sua duração de duas horas. É importante que os participantes
possam nela entrar e dela sair quando necessitem ou desejem, sabendo que a atividade ali
estará quando a ela quiserem retornar. Também é importante que não seja interrompida,
durante sua realização, e nem cancelada para o desenvolvimento de outra atividade.
Tais elementos foram sendo indicados pelos e pelas participantes da Tertúlia de La
Verneda, ao longo dos anos de seu desenvolvimento, como fatores de respeito às pessoas que
freqüentam atividades educacionais e culturais e foram estendidos a todas as outras atividades
da escola. Mais tarde, foram confirmados como elemento-chave de participação na educação
de pessoas adultas, em pesquisa ampla desenvolvida pelo CREA (1996) em toda a Catalunha.
Aqui no Brasil, o NIASE oferece e coordena a Tertúlia Literária Dialógica desde
2002. Neste período, desenvolveu e vem desenvolvendo a Tertúlia em diferentes instituições,
e aperfeiçoando as características da oferta, com base nos princípios, dinâmica e elementos de
estabilidade acima descritos, para que se efetive como atividade transformadora.
Enquanto metodologia de aproximação e de relacionamento com as instituições
parceiras, ao ser procurado, o NIASE explica os princípios, a dinâmica e a necessidade de
garantia de estabilidade da Tertúlia, a um responsável da instituição requerente. Depois, em
comum acordo com o responsável da instituição, organiza e realiza a divulgação da atividade
junto aos participantes, explicando-lhes a origem, a finalidade e a dinâmica do trabalho e
realizando uma pequena demonstração da atividade. Em diálogo com os participantes e
responsáveis da instituição, consensua-se o dia, o local e o horário da atividade. A condução é
então assumida por um membro do NIASE e apoiada por outro.
A formalização do projeto junto aos parceiros tem sido feita por meio de solicitação
por escrito e assinatura de compromisso, por parte do parceiro, de que as condições de
estabilidade da atividade serão por ele garantidas. Tal formalização tem sido realizada
semestralmente.
Resultados e discussão


Tertúlias Literárias Dialógicas no Brasil
O primeiro grupo de Tertúlia Literária Dialógica, no Brasil funcionou de setembro de
2002 a junho de 2003 na Biblioteca Comunitária da UFSCar. Este grupo estava formado por
professores/as, alunos/as de graduação e pós-graduação da UFSCar e pessoas da cidade.
Reunia-se uma vez por semana, e teve como função principal a formação de condutores da
atividade em outras instituições.
Neste grupo, foram lidos e debatidos os livros “Germinal”, de Emile Zola, e “A casa
de Bernarda Alba”, de García Lorca. Esta Tertúlia foi extinta em junho de 2003, por decisão
do grupo, já que sua função de formação de condutores fora realizada e que se configurou
como uma Tertúlia de pessoas da universidade e que não sofrem nenhum tipo de exclusão
social ou educativa – para o que se destina o trabalho com as Tertúlias Literárias Dialógicas.
Pode-se dizer que a decisão do grupo foi pautada no contraste que se vivia entre esta Tertúlia
e a que fôra criada, concomitantemente a ela, no ano de 2002, junto à Universidade da
Terceira Idade (UATI), da Fundação Educacional de São Carlos (FESC), da Prefeitura
Municipal de São Carlos, onde a atividade cumpria sua função.
Desde outubro de 2002, a Tertúlia Literária Dialógica se efetivou na UATI, junto a
homens e mulheres de diferentes idades, ascendências, grupos sociais e graus de escolaridade
que se juntaram ao movimento internacional, em dois grupos de Tertúlia Literária Dialógica
(ver BENTO et. al. 2003a).
Primeiro, nasceu a turma da manhã, que desde outubro de 2002 se reúne na sala de
leitura da UATI, às quintas-feiras, das 8h às 10 horas, com pelo menos dois membros do
NIASE, para ler e discutir as obras da literatura clássica universal. Neste tempo, foram
escolhidos, lidos e compartilhados os livros: “Memórias de Adriano”, de Margaret Youcenar;
“Os Sertões”, de Euclides da Cunha. Atualmente, estão iniciando a leitura de “A Divina
Comédia” de Dante Alighieri.
A segunda turma da UATI iniciou suas atividades em abril de 2003, por requisição de
outros homens e mulheres que não podiam frequentar a turma da manhã. Ela funciona das 14h
às 16h, também às quintas-feiras. Desde seu início, foram lidas as seguintes obras neste
grupo: “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert, “A Metamorfose”, de Franz Kafka, e
atualmente se lê “No caminho de Swann”, de Marcel Proust.
As e os participantes destas duas turmas de Tertúlia têm sido parceiros/as
incondicionais no trabalho desenvolvido pelo NIASE. São homens e mulheres que têm nos
acompanhado em várias ocasiões e espaços de solidariedade com outros coletivos. A
divulgação das Tertúlias em outras instituições, por exemplo, tem sido sempre feita em
conjunto entre participantes da UATI e membros do NIASE.
Uma das atividades marcantes que pudemos vivenciar com as turmas da UATI foi um
espaço de comunicação, em tempo real, com participantes de Tertúlias de Barcelona/Espanha,
por meio de uma videoconferência realizada nas dependências da UFSCar, em 14 de maio de
2003. Funcionários da UFSCar e pessoas do grupo de Tertúlia dedicaram um mês na
preparação do evento (Bento et. al, 2003 b ).
Foi também através da UATI, que teve início o terceiro grupo de Tertúlia da cidade.
No mês de outubro de 2003, uma das participantes da Tertúlia da UATI comentou que sua
filha, Bibliotecária em escola estadual de ensino médio – EEEB “Esterina Placco” – estava
interessada em oferecer a atividade aos estudantes da mesma. Assim, decidimos entrar em
contato com ela para contar um pouco de que se trata o projeto. Da primeira reunião
informativa, que foi realizada na biblioteca da escola, participaram a Bibliotecária e a vice-
diretora da Escola, recebendo participantes da UATI e a coordenadora e uma das moderadoras
do projeto. Nessa reunião, foi combinada a difusão do projeto para os/as alunos/as do Ensino
Médio, da qual também participaram as pessoas da Tertúlia da UATI, do período da manhã,
fazendo uma demonstração da atividade e comentando sua experiência de leitura na Tertúlia.
A demonstração foi realizada com o livro “Memórias de Adriano” de Marguerite Yourcenar.
A Tertúlia na Escola “Esterina Placco” foi desenvolvida de dezembro de 2003 a março
de 2004, às quintas-feiras, de 16h a 18 h. Neste período, os/as alunos/as participantes
decidiram, por consenso, que o primeiro livro a ler seria “A revolução dos bichos”, de Orson
Wells. Neste período, além da condutora e da pessoa de apoio, do NIASE, participou na
animação do grupo um senhor da Universidade da Terceira Idade, que se ofereceu para
acompanhar-nos. A atividade foi suspensa em março de 2003, frente à troca de direção da
escola.
Uma quarta Tertúlia foi também iniciada com a ajuda dos participantes da UATI, no
final de 2003. O projeto desenvolvido pelo Núcleo UFSCar-Escola, Curso Pré-vestibular,
solicitou a atividade ao NIASE e, na primeira semana de novembro, foi feita a divulgação, por
pessoas do grupo e participantes da Tertúlia da UATI, do período da manhã, com o livro
“Memórias de Adriano”, de Marguerite Yourcenar. Estiveram presentes aproximadamente 50
estudantes do cursinho nesta divulgação. A Tertúlia do Cursinho, que contou com quinze
participantes, durou de novembro de 2003 a março de 2004, funcionando aos sábados, de 13h
às 15hs, nas dependências da UFSCar. Como as demais, foi conduzida por dois membros do
NIASE – um como condutor e outro como apoio. O livro escolhido para ler foi “Primeiras
Estórias”, de Guimarães Rosa.
Neste momento, junho de 2004, nasce mais um grupo de Tertúlia Literária Dialógica,
junto a uma turma de Educação de Jovens e Adultos, na cidade de São Carlos. Homens e
mulheres que realizam o equivalente às séries iniciais do ensino fundamental, começam a se
reunir para escolher o livro a ler. Dos grupos com os quais trabalhamos, entendemos que este
será o nosso maior desafio, já que estamos diante de pessoas que vivem e sofrem, em maior
amplitude e profundidade, processos de exclusão social e cultural. Cremos, no entanto, que os
princípios do diálogo igualitário nos guiarão na interlocução com estes homens e mulheres,
como tem acontecido com os demais grupos.
Como principais resultados do trabalho desenvolvido pelo NIASE no projeto
“Tertúlias Literárias Dialógicas” podemos indicar a participação de muitas pessoas nos grupos
citados, vivenciando os princípios da aprendizagem dialógica. Vários depoimentos de
participantes ilustram esta vivência.
Sobre o diálogo igualitário, destacamos duas falas:
- “A riqueza da literatura é a imaginação” – comentava uma participante ao se referir
às possibilidades interpretativas que a atividade oferece. O que é reafirmado por outra
participante:
- “Aqui não é preciso chegar a um consenso nas interpretações que se fazem sobre a
leitura”.
Sobre a transformação, vale ressaltar os seguintes depoimentos:
- “O autor considera que os fatos não influem sobre as crenças. Mas existem fatos que
são possibilidades de mudança de crenças, e isto é aprender” – comentário de uma
participante sobre o livro “No caminho de Swann”.
- “Se não fosse a Tertúlia, eu nunca iria ler um livro como este” – relato de uma
participante da Tertúlia quando fala sobre o livro “Os Sertões”.
Quanto à dimensão instrumental da educação, a leitura de “Os Sertões” pelos
participantes da UATI foi prova intensa deste princípio. A leitura de textos de história, a
retirada do filme de mesmo nome, as informações trazidas sobre o autor, tudo por iniciativa
própria, estimulada pelos condutores e condutoras, foram constituindo um aprofundamento
tão grande de conhecimento que possibilitou a ultrapassagem de mitos em torno do livro, do
autor e do contexto tratado:
- “Ele primeiro escrevia normal e depois trocava tudo por palavras mais rebuscadas” –
participante.
- “Isto que ele fala sobre os mulatos não há teoria que sustente. É pura ignorância e
preconceito” – participante.
- “A vida inteira eu pensei que o Estado de São Paulo tivesse sido invadido pelos
nordestinos. No livro eu vi que, muito antes, os paulistas invadiram o nordeste para roubar as
suas riquezas”- participante.
Enquanto criação de sentido, damos como exemplos:
-”Rotina escraviza ou as pessoas se deixam escravizar por ela, as tecnologias tiram a
gente da rotina” – participante se referindo à videoconferência entre UATI e a Espanha.
- “O hábito pega a gente pelos pés, braços, coração” – participante referindo-se ao
livro “No caminho de Swann”.
Frente à leitura de “Memórias de Adriano”, muitos foram os momentos de criação de
sentido no diálogo. Falou-se sobre vida e morte, a renúncia da velhice para se preparar para a
morte; a morte versus o processo de Crisálida (como pessoa se esconde para esperar a morte);
o mistério de estar aqui no mundo; comunicação não mais em vida (questão de religião).
BATEL & BOGADO (2003) assim sintetizaram o interesse pelo tema:
“O tema despertou distintos sentimentos nas/os participantes, a maneira como vivemos
a morte das pessoas que amamos, e a proximidade da morte vivida por uma ou outra pessoa
do grupo em algum momento da vida. A morte está presente em qualquer fase da vida e não
só na velhice. Por isso, é preciso recriar o sentido tanto da idade como da morte, a idade pode
ser registro da vida, de experiências, de conhecimentos; enquanto que a morte pode ser um
momento de reavaliação da vida das pessoas. No diálogo, surgem alternativas, outras formas
de encarar o tema, a valorização dos sonhos e dos projetos como motores da vida” .
Os livros “Madame Bovary” e “Memórias de Adriano” inspiraram muitas reflexões
sobre solidariedade e, no caso, a solidariedade necessária entre as mulheres e para com elas,
para que se possa transformar a sua situação de desvantagem social. Sobre tal debate
GUERIOS et al. (2003) afirmam:
“Ao fazer sua reflexão sobre as palavras do autor, a participante disse que “a vida das
mulheres é demasiado limitada” não por incompetência própria, mas por falta de tempo para
crescer. Criar filhos exige muito. Somos cobradas por não dar atenção suficiente à família ou,
em não optando pela maternidade, por não sermos completas na plenitude do ser. As próprias
mulheres são as maiores críticas (“se eu agisse assim, também poderia ser grande na vida – ter
preferido a carreira a filhos”), ao invés de colaborarem com o crescimento da outra, dando
apoio à criação de seus filhos”.
Por fim, a igualdade de diferenças, como entendimento de que todas as pessoas das
Tertúlias são iguais e diferentes, e isto implica o direito de todas a viver e a pensar de maneira
diferente, se exercita em relação às emoções e a situações. Os fatos produzem reações
distintas nas pessoas. As emoções são distintas de um para outro, mas todos somos iguais na
humanidade. Uma participante da Tertúlia do cursinho relatava em um encontro: “Perceber
que as pessoas respeitam as diferenças diminui meu medo de falar sobre o livro.”
O princípio de inteligência cultural é o que permite que os outros se estabeleçam. Cada
um dos depoimentos acima é exemplo, também, deste princípio: aprendemos reportados a
contextos e nas interações e, estando em constante interação, sempre nos estamos
transformando. A partir da aprendizagem dialógica, pretendemos fazer da Tertúlia um
contexto de interação positivo e transformador.
Como produto e divulgação do trabalho, no decorrer de 2003, o grupo envolvido no
trabalho de Tertúlias apresentou três comunicações orais e um painel em Congressos
acadêmicos e publicou quatro artigos sobre a atividade. São eles: Dois trabalhos apresentados
no I Congresso Regional de Pessoas Adultas (I CREPA), sendo um deles de autoria de duas
participantes da Tertúlia juntamente com um membro do NIASE e outro apresentado no II
Encontro sobre Prática de Leitura, Gênero e Exclusão. 14° Congresso de Leitura realizado em
Campinas.
Conclusões


Como podemos ver, conforme consta da proposta da atividade, por meio de sua
metodologia, consegue-se que pessoas que muitas vezes nunca leram um livro desfrutem de
obras da literatura clássica. Através dos princípios da Aprendizagem Dialógica promove-se
acesso, ainda, a conhecimento histórico, literário, sociológico, de diferentes culturas (no caso
do Brasil, diversidade advinda das descendências e das migrações internas).
Ao estimular o acesso à literatura como direito de todas as pessoas, independente de
idade, grau de escolaridade, profissão, etc. Ajuda-se a democratizar uma atividade cultural
que muitas vezes é vista como atividade de propriedade de determinado estrato social,
profissional ou escolar.
Por fim, vale ressaltar o espaço de aprendizagem que as Tertúlias Literárias Dialógicas
constituem para as/os estudantes de doutorado, mestrado e graduação dos cursos da UFSCar e
para professor e professora da universidade, que compõem o NIASE. O aprendizado de
estabelecimento de diálogo igualitário entre pessoas com diferentes origens favorece o
exercício dos princípios teóricos que o projeto envolve e que são a base de todos os projetos
do NIASE. Estamos envolvidas e envolvidos em processos de estudos conjuntos, tomada de
decisão em processo de democracia deliberativa e ação social e produção de conhecimentos
acadêmicos, que só são enriquecidos pelo que aprendemos com tantos homens e mulheres,
meninas e meninos com quem compartilhamos palavras nos grupos de Tertúlia.
Referências bibliográficas
BATEL, T.; BOGADO, A. Tertúlia Literária Dialógica: Superando o preconceito pela idade.
In Cdrom do I Congresso Regional de Educação de Pessoas Adultas (I CREPA). São Carlos.
Novembro de 2003.
BENTO, P.; BOGADO, A.; MELLO, R. & RODRIGUES, E. Tertúlia Literária Dialógica:
Prática de Leitura e descolonização do mundo da vida. In Cdrom do II Encontro sobre Prática
de Leitura, Gênero e Exclusão. 14° Congresso de Leitura. Campinas. Julho 2003a.
BENTO, P.; BRAGA, M. e RODRIGUES, E. As tecnologias de informação como espaçoes
de diálogo e aprendizagem – videoconferência Barcelona-São Carlos. AnaisIn Cdrom do I
Congresso Regional de Pessoas Adultas (I CREPA), UFSCar-Prefeitura Municipal de São
Carlos. São Carlos, Novembro de 2003b.
CONFAPEA. Tertulias Literarias Dialógicas. Barcelona, Espanha: mimeo, 1999.
CENTRE DE RECERCA SOCIAL I EDUCATIVA (CREA). Participación y no participación
en la formación de personas adulatas en Catalunya. UNESCO-CIDE. Generalitat de
Catalunya, Barcelona, 1996.
FLECHA, R. Compartiendo palabras – el aprendizaje de las personas adultas a través del
diálogo. Barcelona: Paidós, 1997.
GUERIOS, S.; MARINI, F. & SARTORI, R. Tertúlia Literária Dialógica: Vozes de mulheres.
In Cdrom do I Congresso Regional de Educação de Pessoas Adultas (I CREPA). São Carlos.
Novembro de 2003.
MELLO, R. Comunidades de Aprendizagem: contribuições para a construção de alternativas
para uma relação mais dialógica entre a escola e grupos de periferia urbana. Barcelona,
Centro de Investigação Social e Educativa (CREA), Universidade de Barcelona, Relatório de
Pós-Doutorado, 2002 a.
___________ . Projeto de Extensão: “Tertúlias Literárias Dialógicas”. In MELLO, R. R.
Programa de Extensão: Democratização do conhecimento e da escolarização. Pró-Reitoria de
Extensão. Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, 2002 b.
___________ . Tertúlia Literária Dialógica: espaço de aprendizagem dialógica. Revista
Contrapontos – Revista de Educação da Universidade do Vale do Itajaí, vol. 3, n. 3, p. 449 –
457, set/dez. 2003.

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2 respostas

11 04 2008
belfernandes

Bianquita, vamos fazer esse projeto? Pensei numa tertúlia jornalística também. bj aos dois Bel

Olhei o Houaiss o significado, o qual eu desconhecia…
Datação
1847-1881 cf. CA1

Acepções
■ substantivo feminino
1 agrupamento, reunião de parentes ou amigos
2 (1881)
palestra literária
3 pequena agremiação literária, menor do que as academias e arcádias

Etimologia
esp. tertulia (a1630) ‘reunião de gente para discutir ou conversar’, este de orig.obsc.; cp. it. trastullo (1726) ‘jogo, divertimento, passatempo’; f.hist. 1847-1881 tertulia, 1899 tertúlia

11 04 2008
biancasantana

Bel! Eu adoro a idéia :)
Mas será que temos fôlego?
No sábado todo mundo já estava sufocado com concurso literário + estudo do meio + publicação…
Como eu disse, esses projetos me ajudam muito e trazem mais sentido pras aulas. Mas e todo mundo?
Povo, que acham?

beijos

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