Entrevista: alfabetizar adultos leva 2 ou 3 anos

11 04 2008

Achei essa entrevista na revista Educação com o inglês David Archer, mestre em educação pela Universidade de Oxford, coordenador de educação da ONG ActionAid, que recebeu  três vezes o Prêmio Internacional de Letramento das Nações Unidas. Seu método premiado é utilizado hoje por mais de 500 organizações em mais de 70 países. Atualmente, David Archer atua no apoio a projetos e redes de educação na África, Ásia e América Latina. É também responsável pelo Commonwealth Education Fund, um fundo de US$ 20 milhões que financia projetos sociais na África e no sul da Ásia. [Bel – m4]

 A China constatou há pouco tempo que muitos dos adultos que pensava ter alfabetizado voltaram à condição de analfabetos. O que houve de errado com o programa deles?

O ponto de partida disso é que poucos países estão investindo corretamente em letramento de adultos. Os governos colocam muita energia em criar e planejar escolas, e deixam pouco dinheiro para o letramento de adultos. Então, os programas que são desenvolvidos tendem a ser curtos e com financiamento insuficiente. Esse foi o caso da China. Campanhas que ensinam adultos a escrever e a ler em pouco tempo sempre existiram. Há quem prometa isso em seis meses. Isso simplesmente não existe, não é verdade. Se você quer genuinamente promover letramento de adultos, algo que faça com que o aluno utilize o que aprendeu, são necessários no mínimo de dois a três anos de aprendizagem.

Quais são os modelos bem-sucedidos de alfabetização de adultos?

A Campanha Global para Educação conduziu a elaboração do maior re latório de letramento de adultos pelo mundo em 2005. E encontrou 67 práticas de sucesso em 35 países. Consultamos 100 líderes e experts por todo o mundo e pedimos a eles que nomeassem os programas desenvolvidos por ONGs, governos ou qualquer um que, na opinião deles, davam mais resultados.

Analisamos, nos programas escolhidos, os métodos e os facilitadores. Dessa consulta, desenhamos 12 coisas simples, padrões para desenvolver um programa de letramento bem-sucedido. Os padrões servem como um guia para países que precisam de conselhos. Não são condições e não estamos dizendo que todo mundo deva usá-los. O que dizemos é que, se você quiser aplicar um programa de letramento de adultos no seu país, leia os 12 padrões, eles podem ser um ponto de partida. Mostramos que apesar do senso comum, que diz que há divergências sobre os programas, há um grande consenso. Com essa experiência, ficou claro que é preciso investir no mínimo dois ou três anos e também criar ambientes letrados – particularmente em comunidades isoladas. Se você é um adulto e vive numa vila onde não há nada para ler ou escrever, aprende a habilidade, mas não pode praticá-la no seu dia-a-dia. Ou você trabalha para criar ambientes letrados ou liga o letramento a um processo de transformação, que encoraje e dê meios às pessoas para criar novas perspectivas. É preciso ligar a aprendizagem a um processo que capacite a pessoa a olhar sua vida e identificar coisas que queira mudar nela. Ler e escrever são as maneiras que as pessoas têm para chegar a essa mudança.

 

Programas de letramento são uma boa bandeira política?

Os programas de letramento viram bandeiras de campanhas políticas em épocas eleitorais. As pessoas estão tão “entusiasmadas” para resolver o problema do analfabetismo que quando aparece dinheiro ficam desesperadas, fazem grandes anúncios para alcançar grandes coisas em um curto tempo. Tentam financiamentos a qualquer custo para anunciar que conseguem alfabetizar 10 milhões de pessoas em seis meses. Outro grande problema do letramento é esse mito de que existe uma linha mágica que permite atravessar do não-letrado para o letrado. Não há linha mágica: é um processo contínuo.

 

Como foi sua experiência com Paulo Freire?

Fiz muitos trabalhos baseados no legado de Paulo Freire. Cheguei a conversar com ele por carta por algum tempo, e nos encontramos algumas vezes nos anos 90. Nessa época, desenvolvi um trabalho com educação de adultos inspirado pelas idéias de Freire. Entre 1993 e 1995, depois de termos discutidos suas idéias, levamos o programa Reflect para Uganda, Bangladesh e El Salvador. O que fizemos foi instruir os alunos a desenvolver mapas, calendários e diagramas, ou seja, representações visuais de sua comunidade. Assim, eles analisavam questões econômicas, políticas e sociais de sua vida. Ao fazer esse laboratório de representações visuais, ao transferir isso para o papel, além de aprenderem a ler e escrever, as pessoas faziam um levantamento de sua comunidade, de questões da sua vida e as discutiam politicamente. Minha primeira referência foi o desenvolvimento desse trabalho, que ganhou o Prêmio Internacional de Letramento das Nações Unidas por três vezes (2003, 2005 e 2007). Mas acho que precisamos conhecer outros programas. Nosso método é um dos que foi comprovadamente bem-sucedido, mas, se quisermos construir consensos globais, precisamos desenhar amplas lições. Por isso fizemos o relatório de práticas bem-sucedidas da CGE.

 

Há uma relação direta entre o perfil socioeconômico de um país e o tipo de problema educacional que apresenta?

Não há dúvida de que há uma relação entre o nível de pobreza de um país e o avanço que ele faz em educação. Se você é um país rico, tem os recursos para investir em educação. Mas isso não é uma regra absoluta. Você pode ser um país pobre em termos econômicos, mas o governo pode fazer as escolhas políticas certas e investir em educação. Cuba, por exemplo, não é um país rico, mas tem um sistema educacional incrível. A GCE fez um relatório que analisa 178 países e os classifica por sua performance em educação. Ele mostra que países relativamente pobres são melhores que outros países pobres. Isso se dá por conta do investimento político e políticas desenhadas para educação. Alguns governos se dão bem em termos gerais, mas estão muito mal em agenda. Outros se dão bem em educação infantil, e não estão bem em letramento de adultos. Mais: outros universalizaram o ensino com uma qualidade baixíssima. O Brasil tem uma performance boa. Na corrida pelo Educação para Todos, está em 16º comparado aos outros países, e em 7º comparado com as nações da América Latina. O Brasil peca especificamente em qualidade de ensino. Esse é o grande desafio brasileiro.

 

O senhor vê outros desafios para a educação brasileira?

Pelo que eu vejo, uma questão é a insuficiência de professores com formação adequada, ou seja, é necessário investir na formação continuada. Outro desafio é fazer com que as classes sejam pequenas. O tamanho de uma sala é um dos grandes determinantes do progresso em educação. Um problema que vejo, por exemplo, é que se há no Brasil pelo menos 10% de adultos não-alfabetizados, isso tem um grande impacto no sistema da escola. Porque crianças que crescem em casas de pais não-alfabetizados sofrem para avançar no sistema público. Elas vão à escola, mas quando chegam em casa não há nada que reforce o aprendizado e não há apoio. Sabemos que o grande determinante de sucesso no sistema educacional é a casa de onde você vem. Se você vem de uma casa de classe média em que os pais investem e apóiam mais a educação, a probabilidade de ser bem-sucedido é maior do que alguém que vem de uma casa onde ninguém se importa. E aqui eu me refiro particularmente à alfabetização das mulheres, porque a relação entre o letramento feminino e os objetivos educacionais é forte. Se você tem uma mãe alfabetizada, as chances do filho de ir e continuar na escola são maiores.

 

Qual é a principal questão da educação hoje, globalmente falando?

As contradições entre as políticas educacionais que muitos governos querem desenvolver – e muitos países ricos os incentivam a desenvolver – e as políticas do Fundo Monetário Internacional (FMI). Em metade dos países, o FMI instituiu o caminho das políticas de limitação de gastos públicos com salários. Isso significa que os governos desses países não podem gastar mais que uma determinada quantia com isso. O maior grupo entre esses servidores, em qualquer país, são os professores. Se o maior grupo entre os servidores públicos são os professores, e o FMI diz que você não pode gastar mais que certa quantia com eles, o caminho que os países escolheram foi não pagar os professores corretamente ou não empregar novos. Num momento em que os governos buscam aumentar as matrículas, melhorar a qualidade e reduzir o tamanho das salas, as políticas do FMI contradizem muito isso. As políticas dizem claramente: você não pode fazer isso.

 

O que a Campanha Global pela Educação tem feito quanto a isso?

A ONG ActionAid tem feito, com a CGE, uma série de pesquisas sobre o impacto da política monetária do FMI em educação. Temos acompanhado o FMI, ido às reuniões anuais do Banco Mundial no FMI, desafiando-os nessas políticas e mostrando as pesquisas que fizemos. Em setembro do ano passado, o FMI disse: “Aceitamos que o limite salarial para o setor público pode ter um impacto negativo. Então, não iremos usá-lo como rotina nos países, mas em situações excepcionais”. Foi uma grande vitória. Na prática, o que fazemos agora é desenvolver um sistema que investigue, nos próximos dois anos, se o FMI realmente está comprometido com essa nova política. Esperamos ouvir algum som de mudança, mas reconhecemos que essa é apenas uma parte da história. Eles podem remover esse ponto, mas há outros aspectos da política macroeconômica imposta que perduram e dificultam o investimento em educação. O FMI continuará ditando as políticas econômicas, o que significa que os próprios ministros da Fazenda terão de reduzir salários de professores ou demiti-los. De maneira indireta, com a imposição de que a inflação fique em 5% e que essa meta seja o centro da economia, não haverá mais investimento em educação, porque isso pode ter um impacto negativo para a inflação. Minha opinião é que se você mantiver a inflação em 1% ou 2%, mas colocar mais 100 mil novos alunos na escola, vale a pena. Mas para o FMI e para os ministros da Fazenda, não. A inflação é a prioridade absoluta.

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2 responses

14 07 2008
Vítor Barbosa

Esta entrevista de David Archer é breve , objectiva e sobretudo permite aos que estão preocupados com um mundo mais justo reconhecer a importância de se colocar mais recursos em educação de adultos, incluindo a alfabetização.
Mesmo com dificuldades em conseguir financiamentos a Associação Angolana para Educação de Adultos AAEA, usa o REFLECT com a designação local APLICA, Alfabetização Participativa Libertadora Instruementada por Comunidades Actuantes, pois pretendemos estimular a auto estima e o exercício da cidadania

28 02 2017
Geraldo

É preciso fazer mais com menos. Melhorar a gestão. A Matemática não é modelável pelas boas intenções humanas. Dinheiro é um recurso finito.

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